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Estrangeiros estão comprando
propriedades rurais em todos os Estados do Brasil. Levantamento inédito
do Incra revela que o interesse estrangeiro vai muito além da Amazônia.
Com 1.377 propriedades espalhadas numa área de 754,7 mil hectares, Mato
Grosso é o Estado que tem a maior área de terras em nome de empresas e
pessoas de outros países.
São Paulo, por sua vez, é o campeão em número de propriedades em nome de
pessoas de outras nacionalidades. São 11.424 terrenos, que, somados,
representam 504,7 mil hectares do território paulista. Mato Grosso do
Sul, Bahia, Minas Gerais, Paraná e Goiás também estão no topo da lista
do Incra como os Estados com maior área nas mãos de estrangeiros.
Somente 3,8 milhões de hectares dos 5,5 milhões registrados em nome de
estrangeiros já foram organizados por Estado, número de propriedades e
tamanho de área. O mapeamento do Incra revela a situação dos imóveis até
dezembro de 2007.
Desde 1998, o órgão controla só a aquisição de imóveis rurais por
empresas sem sede no país ou pessoas físicas não residentes no Brasil. O
presidente do Incra, Rolf Hackbart, espera parecer da Advocacia Geral da
União para contabilizar e monitorar a ação de estrangeiros que se
associam a empresas nacionais para investir aqui.
Os números do Banco Central comprovam que a ação internacional aqueceu o
mercado local. Os investimentos diretos estrangeiros em atividades
imobiliárias aumentaram 347% entre 2003 e 2007.
"O presidente Lula esqueceu que temos Constituição e abriu o país à
ganância estrangeira", disse d. Tomás Balduíno, presidente da Comissão
Pastoral da Terra. Balduíno acompanha com preocupação o crescente
investimento estrangeiro e a especulação imobiliária, impulsionados pela
fartura de terras brasileiras propícias a minimizar a crise mundial de
alimentos e a impulsionar a produção de biocombustível.
Plantações de soja, cana-de-açúcar e eucalipto são as atividades que
hoje mais atraem os estrangeiros, em especial nas regiões Nordeste e
Centro-Oeste. "Mato Grosso ainda é um lugar onde se pode expandir [a
produção]. Tem boas terras. E o preço ainda é acessível. Então, os
produtores mato-grossenses estão endividados e estão vendendo", diz o
presidente da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja do Estado de
Mato Grosso), Glauber Silveira da Silva.
Silva cita o grupo argentino El Tejar, há seis anos no Estado e em
expansão. O grupo mantém a empresa O Telhar Agropecuária, que planta
milho e soja em 35 mil hectares no Estado. Ele também destaca a expansão
da SLC Agrícola, grupo brasileiro que é o maior produtor de algodão do
país e capta recursos no exterior.
A empresa assinou em março contrato de financiamento com o IFC
(International Finance Corporation), braço de investimento do Banco
Mundial, no valor US$ 40 milhões para aquisições e arrendamentos de
terras. Na quinta-feira passada, a SLC comunicou a compra de 10.635
hectares em Campos de Júlio (MT), por R$ 82,9 milhões.
Na lista do Incra, os Estados da região amazônica não ocupam lugar de
destaque. Secretário do Meio Ambiente do Amazonas até março passado,
Virgílio Viana disse que, "do ponto de vista racional, é muito mais
grave a ameaça estrangeira em controlar as praias do Nordeste brasileiro".
"Você saiu de uma praia e entra em outra comprada por gringos,
quilômetros e quilômetros. Em termos de presença estrangeira, é muito
mais grave." Ele foi consultado pelo empresário sueco-britâncio Johan
Eliasch em 2005 sobre a compra de 160 mil hectares no Amazonas.
Eliasch usou uma estratégia comum entre estrangeiros: associar-se a uma
empresa nacional ou abrir uma empresa no Brasil, mesmo que seja
controlada por capital externo. É o que japoneses e norte-americanos têm
feito em Correntina, oeste baiano, numa área de 60 mil hectares
adquirida para produção de algodão e instalação de usina sucroalcooleira.
O superintendente de política de agronegócio da Bahia, Eujácio Simões,
afirma que o Estado incentiva o investimento de empresas nacionais com
aporte estrangeiro. Mas diz que, em alguns casos, o governo se preocupa
em conter a expansão. "Os finlandeses comandam a produção de celulose no
extremo sul do Estado e estão esperneando para aumentar a área de
plantio." No Brasil, é necessário esperar seis anos para o corte das
árvores. Na Finlândia, são 15 anos, diz ele.
Fonte: Folha de São Paulo
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