Boi Pirata - Pirotecnia do boi vira passivo judicial

 

Apuí, 29 /07/2008 

Bovinos apreendidos na Terra do Meio


O Ibama vive, desde a primeira quinzena de junho, um pesadelo. Não consegue se livrar de um problema criado pelo estilo pirotécnico do ministro Carlos Minc (Meio Ambiente). Recém-desembarcado em Brasília, o substituto de Marina Silva anunciara, na início de junho, uma ação espetacular. O governo passaria a apreender os bois criados em propriedades ilegais na Amazônia. Minc batizou a iniciativa de “Operação boi pirata”.
 
Dias depois, o Ibama apreenderia, em Altamira (PA), um rebanho de 3.046 cabeças. Pastavam ilegalmente numa reserva ecológica chamada Terra do Meio. Coisa fina: 1.455 vacas, 192 touros, 909 novilhos, 486 bezerros e quatro bois (um par de carreiros e outro de murrucos). Nomeou-se um funcionário do Ibama como fiel depositário dos animais.
 
“Em tese, é o mais novo milionário, com 3.000 cabeças de gado”, ria-se o delegado federal Jorge Eduardo, que participara da apreensão. Anunciou-se a intenção de leiloar o rebanho. O dinheiro seria revertido para o Fome Zero (sim, o programa ainda existe!). Um mês. Dois meses e meio. E nada.
 
Súbito, a piada perdeu a graça. Nesta segunda (28), depois de duas tentativas frustradas, o governo promoveu, por meio da Cia. Nacional de Alimentos, o terceiro leilão. Novo fiasco. A antepenúltima tentativa ocorrera em 21 de julho. Estipulara-se como lance inicial o valor de R$ 3,151 milhões. Nesta penúltima, reduziu-se a cifra em 60%: R$ R$ 1.445 milhão.
 
A pechincha não evitou o mico. Dessa vez, o vexame foi tonificado por uma decisão judicial. Proferiu-a o desembargador Olinto Herculano de Menezes, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A liminar do juiz Olinto chegou quando faltava uma hora para o início do novo leilão. O texto continha termos peremptórios.
 
Anotava que não deveria ser aceito “nenhum lance inferior ao preço de mercado, como tal entendido o valor mínimo de R$ 3.151.530,35, cotado para o leilão não exitoso do dia 21/07/2008”. A exemplo do que ocorrera nas tentativas anteriores, nenhum comprador deu as caras. O Ibama jura que, no final de semana, três interessados haviam inspecionado o rebanho.
 
O diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Flávio Montiel, atribui esse infortúnio à decisão judicial. Alega que a liminar do desembargador “retraiu os interessados.” Marcou-se para a próxima terça-feira (5), o quarto leilão dos “bois piratas”. Antes disso, a Procuradoria-Geral do Ibama recorrerá contra a decisão judicial que impediu a venda na bacia das almas.
 
Os advogados do governo alegarão que, depois da apreensão do rebanho, pecuaristas da região colocaram à venda 10 mil cabeças. O que teria puxado para baixo o preço do gado em Altamira. O Ibama imagina que o leilão da próxima semana será o último. Uma previsão que está pendurada num leque de condicionantes.
 
Primeiro, será necessário derrubar a liminar do TRF. Depois, será preciso desmontar as armadilhas que, obviamente, os pecuaristas armaram no caminho de Carlos Minc. O pesadelo está apenas no começo. Em sabatina promovida pela Folha, no dia 23 de junho, Minc jactara-se de já ter apreendido 12 mil cabeças de gado.
 
Se não consegue levar ao martelo as primeiras 3.046, imagine-se o tamanho da encrenca que terá para leiloar as outras 8.954! Aos pouquinhos, o marketing bovino do ministro vai tomando o caminho do brejo.